26 de outubro de 2013

Fragmento de Sábado #10

Estou lendo Primavera num espelho partido aos poucos, já comecei o livro duas vezes e não me sinto mal por parar na página 90 e decidir que quero ler tudo de novo... 

Separei dois trechos na voz do Dom Rafael, minha personagem favorita: 


"Talvez um rosto não mude com os dias, mas com os anos; no entanto, os que vinham a mim (com exceção de uma mendiga ossuda e tímida) eram sempre novos. E com eles vinham todas as classes sociais, em carros impressionantes, em carrinhos modestos, em ônibus, em cadeiras de rodas ou simplesmente caminhando. Parei de sentir falta do caminho, montevideano e conhecido, da volta a casa. Na nova cidade havia novas rotas. De rota vem derrota, já sei. Nossa derrota pode não ser total, mas é derrota. Já tinha entendido, mas pude confirmá-lo totalmente quando dei minha primeira aula. O aluno pôs-se de pé e pediu permissão para perguntar. E perguntou: “Mestre, por que razão seu país, uma democracia liberal estabelecida, passou tão rápido a ser uma ditadura militar?” Pedi que não me chamasse de mestre. Não é nosso costume. Mas pedi isso apenas para poder organizar a resposta. Repeti o consabido: que o processo começou muito antes, não na calma, mas no subsolo da calma. E fui anotando na lousa as várias rubricas, os períodos, as caracterizações, os corolários. O rapaz concordou. E li em seus olhos compreensivos toda a dimensão da minha derrota, da minha rota. E desde então volto cada tarde por um rota distinta. Por outro lado, agora já não regresso a uma residência. Tampouco é uma casa. É simplesmente um apartamento, ou seja, um simulacro de casa: uma residência com agregados. Mas a nova cidade me agrada, por que não? Sua gente — menos mal — tem defeitos. E é muito divertido especializar-me neles. As virtudes — é claro que também as possuem — são geralmente tediosas. Os defeitos, não. O pedantismo, por exemplo, é uma zona prodigiosa, na qual nunca acabo de especializar-me. Minha bengala, sem ir mais longe, era um indício de pedantismo, e obviamente tive que abandoná-la. Quando me sinto pedante, me deprecio um pouquinho, e isso é péssimo. Porque nunca é bom depreciar-se, a menos que existam razões bem fundadas, o que não é meu caso."
Capítulo Dom Rafael (Derrota e rota)


"[...] Quando arrebentam um militante (como foi o caso de Santiago) empurrando sua família para um exílio involuntário, rasgam o tempo, transmudam a história para esse ramo, para esse mínimo clã. Reorganizar-se no exílio não é, como se diz tantas vezes, começar a contar do zero, mas começar de menos quatro ou menos vinte ou menos cem. Os implacáveis, os que ganharam seus galões na crueldade militante, esses que começaram puritanos e acabaram corruptos, eles abriram um enorme parêntese nessa sociedade, um parêntese que certamente se fechará um dia, mas quando ninguém mais for capaz de retomar o fio da antiga oração. Será necessário começar a tecer outra, a incorporar outra na qual as palavras não serão as mesmas (porque houve também lindas palavras que eles torturaram e justiçaram ou incluíram nas listas de desaparecidos), na qual os sujeitos e as preposições e os verbos transitivos e os complementos diretos já não serão os mesmos. A sintaxe terá mudado nessa sociedade, ainda recém-nascida, que nessa ocasião se mostrará débil, anêmica, vacilante, excessivamente cautelosa, mas que com o tempo irá se recompondo, inventando novas regras e novas exceções, palavras chamejantes a partir das cinzas das que foram prematuramente calcinadas, conjunções copulativas mais adequadas a servir de ponte entre os que ficaram e os que se foram e que então voltarão. Mas nada poderá ser igual à pré-história de setenta e três. Para melhor ou para pior; não tenho certeza. E tenho menos certeza ainda de que poderei me habituar, de que algum dia voltarei a esse país distinto que está se formando agora, atrás das cortinas do proibido. Sim, é provável que o desexílio seja tão duro quanto o exílio. A nova sociedade não será erguida pelos veteranos como eu, nem sequer pelos jovens maduros como Rolando ou Graciela. Somos sobreviventes, claro, mas também feridos e contundidos. Eles e nós. Será construída então pelas crianças de hoje, como minha neta? Não sei, não sei. Talvez os oficiantes, os fazedores dessa pátria pendular e peculiar sejam aqueles que hoje são crianças mas permanecem no país. Não os meninos e meninas que trazem na retina as neves de Oslo ou os entardeceres do Mediterrâneo ou as pirâmides de Teotihuacán ou as lambretas da Via Appia ou os negros céus do inverno sueco. Tampouco os meninos e meninas que carregam na memória as crianças mendigas da Alameda ou os drogados do Quartier Latin ou a bebedeira consumista de Caracas ou o tejerazo de Madri ou as algazarras neonazistas do milagre alemão. No máximo pode ser que ajudem, que transmitam o aprendido, que perguntem pelo desaprendido, que tentem se adaptar e lutar. Mas quem forjará o novo e peculiar país do futuro mediato, essa pátria que ainda é um enigma, serão os púberes de hoje, os que estiveram e estão lá, os que a partir de uma ótica infantil, mas nada amnésica, viram uma boa parte dos duros confrontos e viram como outros adolescentes, os de sessenta e nove e setenta, eram feridos como inimigos e como sequestraram seus pais, às vezes suas mães e até seus avós, que eles só voltariam a ver muito mais tarde e ainda atrás das grades e de longe ou também de uma proximidade feita de incomunicação e distância. E viram chorar e choraram eles mesmos junto de ataúdes que era proibido abrir, e viram como depois veio o silêncio estrondoso nas esquinas, e as tesouras nos cabelos e no diálogo, e isso sim, muito rock e jukeboxes e caça-níqueis para que esquecessem o inesquecível. Não sei como nem quando, mas essa garotada de hoje será a vanguarda de uma pátria realista. E nós, os veteranos? Nós, as carroças, como dizem os galegos? Bem, os que ainda estivermos lúcidos na época, nós, as carroças que ainda estivermos rodando, nós os ajudaremos a recordar o que viram. E também o que não viram."
Capítulo Dom Rafael (Loucos lindos e feios)


Qual livro você está lendo? Me diz aí nos comentários :)

Bom final de semana para todos!
Beigos!

10 comentários:

  1. Sou um pouco tirana comigo em matéria de leitura, mas hoje você me inspirou à liberdade.
    Estou lendo, finalmente, "Oceano no fim do caminho" <3
    beijo

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  2. Que lindo Maura! Já tenho esse aqui, acho que até o fim do ano leio <3
    Tô lendo O sonâmbulo amador, do José Luiz Passos!
    Beijão e boa semana!

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    1. Ai, leia, leia, leia, Tati, muito lindo :D
      Ótima leitura e bom final de semana!

      Beigos!

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  3. Adoro o Mario Benedetti, gosto muito desse livro que você está lendo, é realmente lindo. Já leu A Trégua? É o meu mais querido do autor.

    Estou lendo O som e a fúria, do Faulkner :)

    beijo,

    Pipa

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    1. Ainda não li, Pipa, ele é um dos próximos que quero fazer empréstimo e ler :)
      Boa leitura ;D

      Beigos!

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  4. Esses trechos são realmente lindos, e se eu fosse você não adiaria mais a leitura desse livro, ele é lindo!!!
    E estou agora segurando a onda pra não ler logo o A Trégua, porque depois, só os contos dele que ainda não tenho e acabou... ;( Ao menos em português...

    Xerinhos, lindeza!!!

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    1. Paty, querida, com seu comentário decidi não adiar mais a leitura de "Primavera..." *.*

      Beijão!

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  5. Adoro a sessão fragmento ^_^ Já estou com meu exemplar (lindo) do “Primavera Num Espelho Partido” e não passa do próximo ano.
    Atualmente estou lendo “O Jogo da Amarelinha”, do Cortázar <3
    Beijos, Maura!

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    1. Ai, Lulu, fico feliz que goste da sessão <3
      E fico feliz também que lerá "Primavera..." :D
      Boa leitura e... eu ainda leio algo do Cortázar.

      Beigos!

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Obrigada pelo comentário ^^

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