27 de agosto de 2012

Gênesis por Bernard Beckett

Editora: Intrínseca
ISBN: 9788598078571
Páginas: 173

A ideia vendida pela capa, subtítulo, textos da contra-capa e orelhas não coincide com o que iremos encontrar ao começar a ler o oitavo romance de Bernard Beckett, eu sinceramente pensei que fosse me deparar sim, com o surgimento de uma nova sociedade numa Terra devastada, mas não o que li! O livro me surpreendeu em diversos aspectos, mas... antes disso, vamos aos sentimentos com relação a esse pequeno mas grandioso livro.

Um dos sentimentos que senti ao término foi de: encantamento, mas o sentimento mais forte que se instalou em mim foi o de frustração! 

Se a editora tivesse escolhido outra abordagem para divulgação, eu não teria comprado um pão com queijo e ao morder descobrir que era pão com mortadela. Na realidade, a mortadela que comprei por 5 pilas é de uma qualidade excelente, mas o sentimento de frustração é mui forte, ainda. 
E eu ainda estou muito puta com esse pão com mortadela que comprei e mordi na maior larica literária. 

Anaximandra é uma jovem que está prestes a ser submetida a um teste de quatro horas com três examinadores (leia-se, caras maus ) da Academia - a instituição responsável pela administração da sociedade utópica em que nasceu - a tese de seus estudos em História e de toda sua vida é a vida de Adam Forde, o homem que ''mudou para sempre o curso da História''.
Nas duas primeiras horas, Anax é submetida a inúmeras perguntas, conhecemos a sociedade que antecedeu a Academia, a República, criada por Platão e onde nasceu Adam, um local separado do resto do mundo pela Grande Cerca Marítima que protegia a população da ilha de pestes que se disseminaram durante (e após) a Última Guerra, a cerca foi finalizada em 2051 quando a guerra fervia pelo restante do globo terrestre. Até o término da segunda hora de exame, o ritmo do livro é interessante, é o momento em que as benditas teorias conspiratórias começam a surgir, e você - eu, no caso - começa a imaginar qual foi a grande contribuição de Adam para a mudança da história da República, o que aquele cara lindo fez de tão grandioso assim?! Inquietações a parte, Anax nos conta a história do mito Adam Forde, por suas palavras e seu conhecimento daquele homem que ela aparenta conhecer tão, tão bem, chegamos até o momento em que ele faz o que mudaria para sempre o rumo da República... 

Antes de citar o ocorrido, uma breve explicação sobre a divisão da República, existiam quatro castas, trabalhadores, soldados, técnicos e filósofos, e o critério para a separação era de acordo com a interpretação do genoma do indivíduo. Ao nascer as crianças são separadas dos pais e no primeiro ano de vida são submetidas a testes, e a partir do resultado, têm como destino uma das castas ou são sacrificadas. No caso de Adam, foi levantada a possibilidade de sacrifício, mas diante de acontecimentos os arquivos foram perdidos e isso nunca chegou a acontecer! Na República, homens e mulheres viviam separados, poderiam até se casar, mas para poder ter o direito de algumas horinhas com seu cônjuge deveriam trabalhar para conseguir essa oportunidade.
Legal, né? Eu nem queria ver ele mesmo, pensamento aleatório!

Adam nasce na casta dos filósofos, mas é mandado para a dos Soldados ao perceberem a pré-disposição do garoto em não obedecer regras, além de sua impulsividade e descarada atração pela companhia feminina. Como Anaximandra afirma é nesse momento que a história é mudada... Após a construção da Grande Cerca Marítima, todo tipo de embarcação, avião era abatido, os soldados recebiam ordens claras de matar os refugiados que se aproximassem, Adam era um soldado novato e sentia tédio durante seu turno, dividia o ponto de observação com Joseph, um soldado experiente e de bom coração, estavam em mais um dia de rotina militar quando percebem a aproximação de um pequeno barco, dentro dele encontra-se uma menina e Adam desobedece as regras e não liquida com o barco, ele a salva. 

A punição de Adam inicialmente por seu crime seria a morte, mas um dos filósofos, William, propõe ao governo uma forma alternativa de prisão, Adam participaria de uma experiência para aperfeiçoamento de um novo tipo de androide criado pelo filósofo, Artfink, uma forma que é vista pela sociedade como melhor diante de toda a comoção que a atitude do soldado gerou, as pessoas estão começando a pensar, a questionar-se e a morte dele seria o estopim para uma revolta popular. Adam se propõe a participar do projeto, mas é notável que ele se sente obrigado a interagir com Art. 

A partir da terceira hora de exame, a relação entre o androide e o humano é o foco da prova. E é a partir desse momento que tomamos consciência de onde nos enfiamos... O único trecho honesto da orelha do livro é esse: ''Anax, porém, está prestes a descobrir que nem tudo consta dos registros históricos. Há fatos, imagens, arquivos a que nem todos têm acesso. Antes que o teste termine, virão à tona o obscuro segredo da Academia e a realidade assustadora daquele admirável mundo novo.''

Tolamente havia lido a última página de Gênesis, ou seja, tomei consciência do que aconteceria em partes, ao começar a terceira parte e depois a última parte do exame de Anax aqueles parágrafos começaram a criar sentido para mim e as minhas suposições sobre qual a verdadeira intenção do teste de Anax foi tomando forma... até Beckett e os Examinadores nos conduzirem a partir de hologramas à verdade, uma verdade sufocante, que acabou com tudo o que eu havia idealizado, as imagens criadas em minha imaginação foram destruídas para dar lugar à verdadeira face da Academia, de Anax e da sociedade que Adam fez surgir após sua atitude que começa a tornar-se questionável. E se ele não tivesse salvo a garota? E se ele não tivesse colaborado com o programa de aperfeiçoamento da inteligência artificial de Art? E se esse livro tivesse sido vendido da maneira correta, será que meu espanto ao terminá-lo teria sido o mesmo? Acho que não. 

As considerações que o livro de Beckett nos trás, sobre o que seria ideia, pensamento, consciência, cérebro, essencialmente qual o significado de ser... um ser humano vivo, pensante é uma joia rara, de excelente tradução e diagramação, vendida como bijuteria, ou como prefiro dizer: pão com mortadela para uma vegetariana. 

Ao pesquisar a capa do livro numa resolução melhor, encontrei as duas abaixo, a primeira - sem dúvida - fala mais sobre a estória do que a nacional, e a segunda é bonita, tem até uma cerca ali, tem né, ou será que estou enxergando coisa onde não tem?!

Antes de me despedir, dica de  review gringa de Gênesis, para quem tem um inglês na ponta da língua ou como eu, depende bastante do Google Tradutor, excelente texto por David Newbert. 

Beigos!

Um comentário:

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